Revista Época entrevista Robert Pattinson: “Eu poderia ter ficado histérico com a fama”

Traduzido/Publicado por Ana Paula em 07 Mar 2010


O vampiro Edward, de Crepúsculo, diz como superou o medo das fãs – mas não o ódio dos paparazzi

Ele conseguiu desbancar o “God” da expressão “Oh, my God!” (Ó, meu Deus!). É Robert Pattinson, o vampiro Edward da saga Crepúsculo. Agora os fãs do ator gritam “Oh, my Edward!” (OME!). Entrevistá-lo é como fazer aniversário. São tapinhas nas costas e trocas de pequenos subornos que vão de gratidão eterna, passando por bolinhos de baunilha (para “encaixar” fãs na sessão do novo filme dele), até um suborno de US$ 200 oferecido (e não aceito) por um repórter de um tabloide que está na porta do hotel à caça de informações sobre o ator inglês.

Em sua suíte superprotegida, Pattinson revela-se um rapaz normal, sensível, eloquente e de cabelão seboso. Em Lembranças, Pattinson sofre muito (garotas, suspirem!) no papel de um universitário deprimido pelo suicídio do irmão que inicia um romance conturbado. No final de seu encontro com ÉPOCA, o ator comemora o fato de ter comprado, pelo Kindle, uma coleção completa da obra de Dostoiévski. OME!

QUEM É
Nasceu em Londres em 13 de maio de 1986

O QUE FEZ
Interpretou Cedrico em Harry Potter e a Ordem da Fênix (2005) e O cálice de fogo (2007). Ganhou fama com a saga Crepúsculo, iniciada em 2008. Nas filmagens de Lembranças, em Nova York, quase foi atropelado por um táxi ao fugir de um bando de fãs

DE QUEM GOSTA
Seus atores favoritos são Jack Nicholson (“Cresci obcecado por ele”), Joaquin Phoenix (“Irrepreensível”) e Ryan Gosling (“Faz ótimas escolhas”)

ÉPOCA – Tyler, seu novo personagem em Lembranças, marca uma ruptura em sua fase de ídolo adolescente. Por que aceitou fazê-lo?
Robert Pattinson – Depois que apareci em Crepúsculo, recebi muitos roteiros românticos imprestáveis. O de Lembranças era o único que não se encaixava num determinado gênero. É um romance, um drama, uma declaração de amor a Nova York. Uma coisa que eu acho intragável na maioria dos jovens personagens masculinos em filmes atuais é que parece que eles nasceram ontem. Eles não têm nenhum tipo de histórico, nenhuma personalidade formada. Tudo o que esses personagens aprendem na vida é mostrado nas duas horas de exibição do filme. Tyler é diferente. Você sabe que ele é um cara com uma bagagem emocional, passa por uma crise existencial após o suicídio do irmão e se rebela com o dinheiro do pai rico de Wall Street.

ÉPOCA – Você passou por crises existenciais quando adolescente?
Pattinson – Quando era adolescente, eu achava que tudo o que sentia e todos os meus questionamentos eram uma fantasia. Quando completei 20 anos, fui entender que eu não estava inventando nada. Eu tinha mesmo passado por aquilo. Isso me trouxe um grande alívio, pois pude aceitar o fato de que eu também fazia parte do mundo, que eu não era esse ser estranho e alienado que não tem ligação com nada.

ÉPOCA – Você passou pela fase de escrever poesia, de se rebelar?
Pattinson – Jamais fui adolescente rebelde. E jamais escrevi poesia, pois acho lugar-comum. Eu escrevia música e, mais tarde, comecei a atuar. Uma das coisas mais incríveis do trabalho de ator é que ele funciona como uma válvula de escape para inúmeras coisas. É o único trabalho no qual você tem uma desculpa para pensar em como você se sentiria em certas situações. A partir do momento em que você dedica grande parte de seu tempo pensando sobre outras personalidades acaba se livrando de uma certa estafa que pode resultar em ressentimento.

ÉPOCA – Foi difícil escolher entre a carreira musical e a de ator?
Pattinson – Ainda componho músicas. Depois de Harry Potter, comecei a fazer pontas em outros filmes por dinheiro. E aí veio Crepúsculo, e tudo mudou. De repente, tinha a possibilidade de escolher trabalhos, de ter influência na pré-produção e no desenvolvimento do roteiro. Tudo fica melhor, pois você está investindo seu tempo numa coisa produtiva. Uma coisa chata de ser ator é que você tem muito pouco controle sobre o que faz. O máximo que você pode fazer, na maioria das vezes, é dizer sim ou não.
"Procuro atender os fãs que me pedem uma foto. O que me tira
do sério é notar que alguém está me fotografando
sem minha autorização"

ÉPOCA – Você admira os escritores de discursos políticos. Essa era uma ocupação que poderia seguir caso não tivesse decidido ser ator?
Pattinson – Uma das coisas mais interessantes para mim sobre discursos políticos é que a maioria dos profissionais que os escrevem não tem nenhuma afiliação política com o candidato. Você tem um incrível poder em mãos sem ter o peso da responsabilidade. Pode ser blasé a respeito de quem ganha. Li um livro interessante chamado Alpha dogs, sobre um grupo de executivos de publicidade que viraram conselheiros políticos e criaram um indústria bilionária que reorganiza o jeito que as eleições são manejadas. E eles mudaram o rosto da política. O candidato é apenas um rosto para eles. Tudo não passa de uma máquina de publicidade.

ÉPOCA – Em entrevista à revista Details, você disse que adora ler sobre doenças tropicais e menciona até o peixe amazonense candiru!
Pattinson – (Risos.) A jovem roteirista que me ajudou a revisar o roteiro de Lembranças também é fissurada por doenças obscuras. E começamos a trocar imagens de doenças tropicais por e-mail, o que, convenhamos, é uma coisa horrível. De todas as doenças, nada pode ser mais horrível do que um peixe parasita que entra por sua uretra e se alimenta de seu sangue (risos) !

ÉPOCA – Com o sucesso de Crepúsculo, você teve de aprender a lidar com a fama. Como é esse processo?
Pattinson – Quando você tem um objetivo na vida, tudo fica mais fácil. Se essa súbita fama tivesse acontecido comigo e eu não tivesse nenhum lugar para ir emocionalmente, talvez tivesse ficado um pouco maluco. Mas, assim que fiz o primeiro filme de Crepúsculo, sabia que teria mais trabalho. Sou obcecado por cinema e quero fazer bons filmes. Se tivesse me mantido muito presente na histeria coletiva criada pelo filme, eu teria me tornado histérico também. Isso é perigoso. No começo, eu olhava para aquelas massas como se fosse um muro de onde brotava um som ensurdecedor. Todo mundo parecia ser igual. Agora vejo a massa de uma forma individual. Consigo discernir o rosto das pessoas, o que é menos assustador.

ÉPOCA – Deve ser uma experiência brutal ter essa legião de fãs.
Pattinson – É intimidante, sim. O que eu realmente não gosto é da quantidade de aparelhinhos com câmeras embutidas. Procuro atender os fãs que pedem uma foto. Tento atender todas as pessoas que me pedem uma foto quando vou jantar fora, por exemplo. O que me tira do sério é notar, pelo canto dos olhos, que alguém está tentando tirar uma foto sem autorização. Sinto como se me tratassem como um animal. Os paparazzi movimentam uma indústria milionária, e eu não quero ser um produto. Quando isso acontece, me levanto, vou até a pessoa e tento envergonhá-la (risos) .

ÉPOCA – Que música você ouve?
Pattinson – Adoro jazz. O saxofonista Coleman Hawkins é meu favorito. Comprei um CD do grupo Bossa Nova Bossa. Acabei de comprar um instrumento brasileiro. Incrível.

ÉPOCA – Qual?
Pattinson – Uma viola caipira. Paguei 50 libras. Tenho obsessão de comprar instrumentos musicais obscuros. E fiquei fascinado com o design da viola, do pescoço gordinho dela, das dez cordas. O som é potentíssimo. 

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