Sobreviver ao Vampiro

Traduzido/Publicado por Deia Almeida em 22 Mar 2010


A fama lhe obrigou a viver oculto e sair só de noite. Como seu personagem de Crepúsculo. Robert Pattinson se desintoxica brevemente com Remember Me.

Robert Pattinson assegura ter encontrado a solução para passar despercebido: deixar a barba. "Funciona. O outro dia, em um bar, um
homem me disse que eu parecia o ator de Crepúsculo. Que tinha que ir ver os filmes", explica. Dá apresso desiludir. Hoje aparece  de barba
e boné de beisebol. Um uniforme anti paparazzo clássico que dificilmente lhe fará invisível.

Este londrino de 23 anos teve que digerir a fama rapidamente. Até há um par de anos vivia das rendas que lhe deu o pequeno papel de Cedric Diggory, o bonitinho de Hogwarts, em dois dos filmes de Harry Potter. Era um garoto de colégio caro, com uma família estável, que passava o tempo em pubs e tocando o violão. A ponto que pensava em deixar a interpretação quando lhe chamaram para um casting em Los Angeles da esperada adaptação da saga vampírica de Stephenie Meyer.

Cinco mil candidatos aspiravam a ser o irresistível chupasangue Edward Cullen. A diretora Catherine Hardwicke não ficou com nenhum: "Vi muitos garotos bonitos. Este era o problema. Pareciam o típico menino macaco de instituto. Nenhum dava a impressão de vir de outro tempo ou de outra época", declarou Hardwicke.

Pattinson não tinha lido Crepúsculo e não tinha nem idéia do culto ao redor dos livros. Comprou uma passagem de avião do seu bolso e dormiu na casa de seu agente. Tomou um valium antes da prova, mas algo se conectou entre ele e a já contratada Kristen Stewart. "Quando se conheceram, pudemos sentir uma química muito forte. Pura eletricidade", comentou Hardwicke. Pattinson conseguiu o papel. Nem
imaginava o que viria em em seguida.

Da noite para o dia, se viu perseguido por mulheres gritando, perseguido por fotógrafos, imerso em verdadeiras fugas precipitadas. Teve que aprender a viver fechado em hotéis e a sair só de noite. Ironias da vida, interpretar a um vampiro lhe fez viver como um: "Nunca tinha me ocorrido criá-lo assim, mas é certo. É incrível a histeria e exagero que desencadeia", assegura com os olhos muito abertos, como se testemunhasse horrores inenarráveis.

A particularidade do efeito Pattinson é de alcance geral. Às predizíveis seguidoras adolescentes se unem aos grupos de adultas suscitadas, as chamadas "Twilight Moms", que graças a Edward e Bella (os apaixonados encarnados por Pattinson e a mortal Stewart) revivem as fantasias e calores da puberdade. Até as mais experientes profissionais não podem resistir: Camilla Long, ácida jornalista do Jornal The Times, anunciou estar emocionada em Twitter que conseguiu roubar um beijo do ator durante uma recente entrevista.

"As mais piradas são as de vinte e tantos anos, porque ainda se acham
adolescentes", explica o ator rindo. Em seguida recua: "A verdade é que há poucas que estejam realmente loucas. Tive algumas experiências ruins. São só garotas que acampam durante dias para fazer vida social. Para elas sou algo assim como uma desculpa. É gente que vem de lugares distantes e viaja as grandes cidades pela primeira vez". Pronuncia "gente" como se referisse a criaturas extraterrestres. "Se sentem seguras porque se rodeiam de pessoas com suas mesmas afeições".

Mas a súbita notoriedade também traz conseqüências positivas. O gancho de Crepúsculo lhe transformou em um dos profissionais mais bem pago do cinema. Segundo a lista de Vanity Fair, em 2009 ganhou aproximadamente 18 milhões de dólares, o que lhe situa dois postos acima de Brad Pitt no top de ingressos em Hollywood. E segundo a atriz Anna Kendrick (que há passado de amiga falsa beata de Bella em Crepúsculo a uma nomiação a um Oscar por Amor sem Escalas, o britânico é o único ator que pode colocar ciúme a George Clooney.

Em pessoa, Pattinson é um educado aos vinte e poucos de sorriso nervoso, ainda envergonhado de ser o centro das atenções. Tende a definir muitas coisas como "raras" e, como a todo bom britânico, a badalação e os trejeitos lhe resultam embaraçosos. Muito se escreveu sobre sua suposta fobia à banho, mas nesta ocasião tem um aspecto limpo e cheiroso.

Apresenta seu último trabalho, Remember Me, um drama romântico situado em Nova York anterior ao 11 de setembro. Interpreta um rapaz torturado pelo passado que se apaixona pela companheira de universidade (Emilie de Ravin, a mamãe principiante de Lost). E breve descobrirá que lhes unem tragédias similares. Escolheu o projeto atraído pelo seu realismo: "Aceitei antes de começar Crepúsculo. Sabia que tinha que fazer vários filmes de uma saga fantástica e gostei da idéia de um personagem e uma história tão reais. Vê-la é como observar um pedaço da vida de uma família".

Remember Me não será o título que mostra uma nova faceta de Pattinson. O ator passa os 113 minutos de um filme polindo uma expressão de angústia existencial parecida à do sensível vampiro Edward. E fumando como um louco. "Que um protagonista fume é incomum. Mas o que resulta mais raro é que essa será a parte mais polêmica do filme. Para mim é um detalhe realista. Todos os garotos de vinte e poucos anos fumam". Pattinson admite reservadamente que ele também é fumante.

Em Remember Me, por último, há cenas de sexo com sua colega. No entanto, é improvável que estas cenas consigam colocar às espectadoras tão cardíacas como os momentos de paixão não consumados de Crepúsculo. Pattinson não notou a diferença: "Para mim é algo parecido. Você tem que mostrar as mesmas emoções. Quando realmente você ama a uma pessoa e você se deita com ela, sempre quer dar algo mais do que sexo". Na espreita, seu representante pigarreia: um gesto de censura ou mera casualidade?

Sua primeira experiência sexual —cinematográfica— teve lugar em Little Ashes, uma produção feita na Espanha que indaga a relação entre Dalí e Lorca. O Pattinson pre-vampírico interpretou o pintor surrealista e declarou que as cenas de sexo, "rodadas ao ar livre com os elétricos espanhóis (rindo) em seu íntimo", lhe resultaram incômodo. Também informou que o orçamento era tão baixo que os atores não tinham "nem trailer". Lhe pediram explicações e uma desculpa.

No mundo de Robert Pattinson, onde tudo sai fora do normal e as mesquinharias se transformam em exclusivas, é útil aprender a arte de dizer sem dizer e explicar sem se molhar. E é que, apesar à ausência de escândalos em sua curta carreira, que seu passado até pode se qualificar de chato, os fofoqueiros se unem em conversar para arrumar
constantes notícias pingadas.

A mais persistente é que mantém um arrebatador romance com sua colega de Crepúsculo, Kristen Stewart. A diretora avivou as especulações declarando a Time que tinha aconselhado a Pattinson não se envolver sentimentalmente com Stewart, por ser menor de idade. "Não queria responsabilidade sobre algo que finalmente sucedeu". Ambos atores negam que estejam ou tenham estado juntos.

Pode que ser que o próximo filme dê um pouco de variedade a seus titulares. Filmando junto de Uma Thurman em Bel Ami, uma adaptação do livro de Guy de Maupassant. "Nunca tinha lido literatura francesa, e agora estou muito interessado. É incrível que a história seja de 1885 e ainda resulte moderna". Pattinson interpretará Georges Duroy, um sedutor sem escrúpulos que transa na alta sociedade parisiense. Está emocionado com ser o mau do filme: "É uma comédia muito escura, do tipo que normalmente não encontra. A história me resulta muito divertida. Mesmo que provavelmente os demais não lhe vejam a graça".

Assinou um contrato de quatro filmes de Crepúsculo. A terceira, Eclipse, estreará no dia 30 de junho, e talvez o último livro, Amanhecer, se divida em dois filmes. Se a coisa se alarga em excesso,
Pattinson pode ficar tão estagnado como seu vampiro centenário de 17 anos que não queira uma mudança, estudar, fazer outra coisa? "Talvez…", diz com o tom de quem se aflige com a tomada de decisões. "Não sei se quero atuar toda minha vida".

Remember Me estreia no dia 31 de março na Espanha.

Tradução  Deia Almeida

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